03/07/11

Como os monstros se tornam monstros. O que é, afinal, justiça?

“Jovem mata 12 crianças em uma escola de Realengo”.
Há alguns meses atrás, esta notícia estampava capas de jornais, revistas e teve uma cobertura completa por todas as emissoras do país. Notícia essa que saiu mundo afora, chocou milhões de pessoas e manchou para sempre a bandeira brasileira de sangue. No fim, o monstro, como todos o chamavam, morreu com um tiro de sua própria pistola. Com isso, uma sensação, não totalmente consoladora, mas pelo menos de justiça, foi sentida pelas famílias de todas aquelas crianças. Mas, será mesmo que isso é justiça? Será mesmo que o rapaz que realizou tal ato repugnante, Wellington Meneses, o fez apenas por ser “um monstro”? Quais foram seus motivos, suas idéias, seu objetivo ou sua motivação?

Vivemos em uma sociedade falha, cuja mesma permite que tais “monstros” sejam criados. Falhas estas que todos nós vemos no dia-a-dia, mas que, inacreditavelmente, fechamos nossos olhos e seguimos em frente. Sempre ficava feliz quando via alguma notícia semelhante a esta de cima com o mesmo desfecho, com o vilão acabando morto no final. Admito que sentia uma sensação de justiça, de “ele fez, ele pagou”, de “olho por olho, dente por dente”. A compreensão da atitude humana, mesmo que maléfica, vem de um pressuposto simples: o comportamento humano é igual a soma de código genético e influências ao longo da vida. Porém, quando você se permite abrir os olhos e ver que o problema é muito mais complexo do que você achava e percebe que o vilão é, na verdade, uma vítima também, você não consegue sentir ódio nem dos piores assassinos. Aí você me diz “ele matou 12 crianças indefesas. Como você pode não ter ódio disso, seu idiota?”

Eu sei, não precisa gritar, mas vamos analisar o caso um pouco mais profundamente do que aparece na televisão? Vou usar 3 exemplos de assassinos em série, todos muito famosos.

- Henry Lee Lucas, assassino americano, condenado por homicídio e listado como o mais prolífico matador em série dos EUA. Confessou estar envolvido em mais de 600 assassinatos. Nas palavras dele próprio, Viola Lucas, sua mãe, era uma prostituta violenta. Costumava bater nos filhos sem razão aparente e obrigava-os a vê-la ter relações sexuais com outros homens. Seu pai, alcoólatra. Certa vez, Lucas esteve três dias em coma depois de ter sido espancado com uma prancha de madeira. Cedo em sua infância, viu-se obrigado a vestir-se como uma garota por sua mãe. Ela teria cacheado os cabelos loiros do garoto em madeixas e o enviado para escola com roupas de menina. Submetido a horrores por sua insanamente abusiva mãe, Lucas começou a entregar-se a depravações sádicas enquanto ainda era criança. Aos treze, foi assumindo o compromisso de sexo com seu meio-irmão mais velho, que também introduziu Henry à bestialidade e á tortura de animais. Uma de suas atividades preferidas era cortar as gargantas de pequenos animais e depois violar sexualmente os cadáveres.

Um ano mais tarde, com QUATORZE anos, cometeu seu primeiro assassinato. Lucas tinha um estranho gosto por necrofilia e matava a maioria de suas vítimas por espancamento (reflexo do que vivenciou a vida inteira, ou apenas mera coincidência?). Vamos para o próximo.

- Marcelo Costa de Andrade, vulgo Vampiro de Niterói, brasileiro, acusado de matar cerca de 12 meninos. Viveu parte de sua infância na favela da Rocinha, num lar desestrututrado, e sua mãe, empregada doméstica, apanhava constantemente do marido. Foi mandado por um período para a casa dos avós, onde também era agredido diariamente. De volta ao Rio tempos depois, era vitima constante de maus tratos pelos novos companheiros dos pais, que haviam se separados. Neste período, se não bastasse, também foi abusado sexualmente por um homem mais velho. Foi então internado em um colégio para meninos, onde era hostilizado pelos colegas e chamado de retardado. Foi mandado embora da instituição e, assim que saiu, passou a se prostituir. Certa vez tentou cometer suicídio. Aos 16, foi morar com outro homossexual.

E cresceu assim, um jovem que durante todos os seus anos de vida viveu em ambientes hostis, onde era espancado e sofria abuso sexual. Cresceu desestruturado, sem as bases do convívio social da nossa sociedade e, sendo apresentado a tudo isto desde seu primeiro ano de vida, não me surpreende nada que ele ache que tudo o que fazia com suas vítimas era “normal”. Nos seus crimes, todos com garotos na faixa dos 12 anos (idade na qual ele sofria agressões e abusos, coincidência novamente?), matava as vítimas a pancadas caso reagissem e as estuprava, não importando se já estavam mortas.
Next, please.

- Pedro Alonso Lopez, serial killer colombiano. Conhecido como “Monstro dos Andes”, matou mais de 300 pessoas, sendo 53 delas meninas entre 9 e 12 anos. Apenas com estas duas linhas, a grande maioria das pessoas já o trataria como um monstro, um ser que não merece nada além da morte e do nosso ódio. Mas, será que esta é a resposta que devemos dar por seus atos? Tanto ele quanto o garoto Wellington, quais foram seus motivos? Sua motivação? Ou o fez apenas por ser um maníaco sem controle? Vamos a sua história.

Pedro era filho de uma mãe prostituta e cresceu em meio à promiscuidade, no bordel. Era agredido constantemente e, aos NOVE anos, foi expulso de casa depois que foi pego acariciando sua irmã mais nova (reflexo, neste caso também, de tudo que via diariamente). Em seguida, sozinho, foi recolhido por um pedófilo e estuprado continuamente. Cresceu assim, como uma pessoa que jamais teve acesso a padrões sociais normais. Aos 18 anos, foi preso e espancado no presídio por uma gangue e se vingou matando os 4. Ao ser solto, encontrou-se em uma sociedade onde ele era o errado sem nunca ter tido a chance de ser apresentado ao certo.

Estes 3 casos são os melhores exemplos que encontrei. Todos assassinos cruéis, impiedosos e que despertam o nosso ódio apenas de ouvirmos falar em seus nomes. Porém, seus exemplos se estendem a qualquer outro comportamento marginal. Estendem-se a grande maioria dos outros assassinos. Estendem-se ao caso do garoto Wellington. Estendem-se também ao simples menino que cresceu na favela, com drogas e armas passando em frente dos seus olhos todos os dias, e que vê o tráfico e o crime não como algo errado, mas como algo normal e necessário para sua sobrevivência. Todos casos de pessoas que cresceram em ambientes hostis, no meio de padrões sociais que fogem completamente do que consideramos aceitável, pessoas que cresceram, falando em grosso modo, no errado, sem nunca terem tido a chance de conhecer o correto. E o que nós, da “elite”, pensamos sobre isso? Ora, foda-se, para a maioria de nós são apenas monstros e marginais, que não merecem nada mais além de uma morte lenta e dolorosa, para termos a doce sensação de pseudo-justiça e continuarmos nos escondendo atrás de nossas máscaras hipócritas.

Não somos capazes de fazer justiça. Somos o sujo tentando limpar o imundo. Fechamos os olhos para a raiz do problema, não conseguimos manter uma sociedade estável e “consertamos” de um modo mais fétido ainda, nos livrando daquilo que nós mesmos construímos, daquilo que consideramos inadmissível em nossa sociedade imperfeita. Justiça seria se todos nós tivéssemos condições adequadas de subsistência. Justiça seria se todos nós tivéssemos acesso, desde que nascemos, a educação de qualidade, saúde de qualidade e baixa desigualdade social. Justiça seria se o indivíduo que nunca teve a oportunidade de seguir o correto, fosse ressocializado. Justiça seria se, na verdade, este indivíduo nunca tivesse sido apresentado ao errado, com a sociedade lhe oferecendo apenas o caminho correto. Justiça seria se conseguíssemos enxergar que, por trás de todo monstro, existe uma história e motivos que transcendem a nossa simples observação. Desejamos a morte daqueles que nos fazem mal, queremos, na verdade, vingança, sem estar nem aí pro mal que este indivíduo pudera ter sofrido anteriormente.

Não estou querendo com este texto dizer que devemos perdoar estes assassinos. Devemos sim repudiar qualquer atitude como estas, ou perdemos a nossa essência humana. Porém, quero deixar claro aqui que entendo perfeitamente os motivos que levaram estes indivíduos a realizarem tais atos. Não foi porque eles nasceram daquele jeito, foi simplesmente porque a sociedade permitiu que eles se tornassem o que se tornaram: Monstros. O caso do rapaz Wellington é o que mais se encaixa neste contexto. Um rapaz que sofreu sério bullying durante toda sua infância-adolescência, que era zombado por colegas e que não tinha família. Humilhação social e solidão eram seus companheiros, sentimentos que Wellington guardou dentro de si até que resolveu botar para fora na forma de vingança. Assim como ele diz no vídeo abaixo, “Que o ocorrido sirva de lição, principalmente para as autoridades escolares, para que descruzem os braços diante de situações que alunos são agredidos, humilhados, desrespeitados. Se tivessem descruzado os braços antes, e feito algo sério no combate a este tipo de práticas, nada disso teria acontecido. Eu estaria vivo, todos os que matei estariam vivos”.

E, assim como Henry, Marcelo, Pedro e Wellington, outros virão. E nós continuaremos os odiando, ignorando e fingindo que somos cegos diante da raiz do problema, apenas nos livrando dos resultados que, inevitavelmente, o problema criou. Continuaremos lhes desejando a morte, apenas para nos confortarmos com esta falha sensação de justiça. E continuaremos assim, seres imperfeitos criando soluções mais imperfeitas ainda para emendar um mal que nós mesmos criamos. E é nestas horas que sinto repulsa de ser humano.

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